Noite. Bairro deserto. Uma ou outra casa no meio de um monte de lotes de terras cheias de mato alto esperando compradores abastados. Ninguém nas ruas até então. Na mais distante dessas casas estava Laura. Pescava no sofá, centralizado na ampla e iluminada sala, embalada pelos sons da novela, dos grilos e dos sapos. Uma canção de ninar a qual ainda tentava se adaptar. Valia a pena.
Marta sofreu grande abalo quando Antonio morreu. Desde então sua vontade de viver vinha definhando. Ricardo, seu único filho, era o único motivo pelo qual se mantinha em pé, porém ainda assim, era triste. Certa noite acabou saindo para uma festa com uma amiga nova, coisa que não fazia. Quatro meses depois Marta era uma alcoólatra, festas noturnas e sexo tinham se tornado o novo sentido de sua vida. Assim, precisava de alguém para olhar Ricardo enquanto saia para suas noitadas.
O curumim era gordo, feio e chato, mas Laura sabia exatamente o que fazer para deixar o menino quieto, era a única capaz de fale-lo dormir cedo. Depois que ele dormia ela estava livre, como naquela noite. Sentia um sono incomum, a semana de provas fora puxada. Acompanhar a novela tornou-se um desafio. As vozes dos atores perdiam o sentido, as imagens perdiam o foco. O medo a fazia lutar contra o sono, mas o peso do receio se tornou menor que o das pálpebras. Entregou-se.
Cabelos loiros e encaracolados, olhos verdes, pernas grossas, aparelho nos dentes. Uma bela jovem com cerca de dezessete anos de idade, muito despertava em muitas pessoas. No rosto arredondado costumava usar um par de óculos de alto grau, que no momento estavam no chão, ao lado do sofá. Um vestido leve descia até quase os joelhos cobrindo seu corpo branco e fornido. Doce Laura.
As cortinas dançavam levemente, guiadas pelo vento. O vento e o tempo brincavam singelamente com tudo no recinto. Um salto. O vento de súbito exaltou-se. As cortinas subiram, o tempo fugiu assustado, e finalmente a janela estalou contra a parede. Os olhos verdes de Laura arregalaram e o seu corpo, a pouco derramado no sofá, encolhia-se tenso num dos cantos do móvel. Coração acelerado. Macias e nervosas mãos tatearam rapidamente o chão, buscando o par de óculos e enfim ela pode notar que era apenas o vento e o vento apenas. Porém não notou que o tempo correra dali.
Acalmou-se. Divagou durante quase um minuto. Foi para algum lugar indecifrável e depois voltou e olhou para fora de si. Vislumbrar a janela escancarada e as cortinas dançantes lhe causava leve temor. Nada que devesse ser levado a sério, afinal, existiam grades, mas mesmo assim as janelas foram imediatamente fechadas. As cortinas se aquietaram. Desligou a televisão, não sem antes notar que o tempo havia-se ido, assim como o sono.
Pensou em desligar as luzes e forçar o sono, chegou a tomar a direção do interruptor que ficava ao lado da porta da sala. Fome. Laura desviou para a cozinha. Geladeira aberta. Um copo de leite doce e gelado. Cozinha no escuro. Da cozinha para sala, agora poderia desligar as luzes e seguir para o quarto. Ouvia-se o som da colher batendo levemente nas laterais internas do copo de vidro, para não deixar o açúcar se concentrar no fundo do copo.
Seus dedos quase se encostaram ao interruptor, mas, uma fração mínima de segundos antes de desligar, a porta retumbou numa potente seqüência. Deixou escapar um grito agudo e num reflexo pulou pra trás com uma das mãos sobre o peito e a outra em concha sobre a boca. O copo de leite foi ao chão e o som do vidro despedaçando foi ofuscado pelo agressivo e continuo bater de porta. Dessa vez seus lindos olhos realmente tiveram um motivo para se arregalar e seu coração acelerou algumas vezes mais rápido que da primeira vez naquela noite.
Um verdadeiro susto. Um medo real? Justo? Não. Talvez fosse Marta, que embriagada batia na porta por não encontrar a chave de casa. Mas esse foi apenas um dos milhões de pensamentos que correram pela mente surpreendida de Laura nos dois segundos de silencio que seguiram. Estava em pandarecos, mal podia respirar, o corpo tremulo começou a suar, incapaz de reagir. Dois segundos exatos, uma nova pancada, dessa vez apenas uma, porém mais intensa que as outras. Não parecia um chamado, e sim, uma tentativa de arrombamento. Laura viu a porta arquear até o limite. Correu em direção a escada.
Um segundo golpe extravasou a porta. A maçaneta bateu na parede, estourando um pedaço da pintura e do concreto, emitindo um barulho ainda mais alto do que os outros anteriores. O corpo estremeceu mais, o coração quis parar, um arrepio percorreu a espinha enquanto Laura corria. Não ousou olhar para trás. Subiu os primeiros degraus da escada sem notar Ricardo no final das escadas, com um taco de baseball na mão.
Alguns meninos que assistem muita sessão da tarde almejam uma vida típica dos meninos norte americanos dos enlatados. Assim, Ricardo, órfão, classe média alta e mimado, acabou conseguindo muitas coisas das quais muitos outros meninos sonham. Uma vez quis um taco, uma bola e uma luva de baseball, alguns dias depois os tinha e alguns meses depois eles estavam esquecidos e inutilizados num canto do quarto. Mas, ao menos essa noite, o taco seria útil.
Os cabelos loiros e encaracolados da jovem foram agarrados por mãos firmes. Um puxão. O belo corpo girou por cima do corrimão que estalou e pendeu para o lado. A bela e desesperada moça encontrou o chão com a lateral de seu corpo. Todo o ar parecia ter se esvaído e parecia impossível puxa-lo de volta para os pulmões. Vista embaçada. Os óculos estavam em algum lugar pelo chão.
Novamente as mãos firmes encontraram os cabelos loiros e encaracolados. Laura foi erguida. Não podia gritar ou respirar. Apenas chorava e gemia baixo, ainda incapacitada de uma reação maior que essas. O agressor a manteve de costas, com seu corpo excitado encostado ao dela. Foi arremessada contra o sofá. Ricardo gritava com o taco de baseball nas mãos, ameaçando inocentemente o... palhaço?
Sim, era um palhaço. Um grande palhaço. Calças largas, sapatos pontudos, camisa de listras coloridas, suspensórios vermelhos, rosto branco, uma imensa boca sorridente desenhada em volta da boca verdadeira e, é claro, um nariz arredondado e vermelho. Alto e magro, cerca de quarenta anos. Careca na parte de cima da cabeça, mas da nuca e das laterais desciam longas mechas verdes, amarradas em tranças finas. Olhar penetrante e, como todo bom palhaço, sorriso insano.
Ricardo tremia como jamais tremeria em toda sua vida. O alegre invasor contemplou por um segundo a patética cena, não mais tempo que isso, palhaços conhecem crianças. Nunca menospreze uma. O pé direito, de número quarenta e cinco, afundou no peito da criança. Ricardo foi de encontro com a parede, soltando o taco que rapidamente estava na mão de seu agressor e, tão rapidamente quanto, era usado para desfigurar sua face, em uma seqüência impiedosa e letal. Quatorze golpes muito bem aplicados para ser mais exato. Só precisaria de um, mas não teria a menor graça.
Laura tentou inutilmente gritar enquanto acompanhava o rápido espetáculo, que já ganhava um tom rubro, respingado levemente ao redor. Tentou correr, sentiu uma pontada na planta de um dos pés. Um caco do copo de leite quebrado havia penetrado em um de seus pequenos e delicados pés. O esquerdo. Prosseguiu, lutando contra a dor a ainda contra a falta de ar. Doce Laura.
O palhaço deixou o garoto e, sem precisar correr, atravessou rapidamente a sala com suas longas pernas. Antes que Laura encontrasse a porta o taco de baseball de Ricardo encontrou seu joelho direito. As pernas vacilaram e o corpo pendeu pra frente. Um novo golpe nas costas. O corpo já quase sem equilíbrio, fraquejou e foi ao chão. Recebeu então um poderoso chute nas costelas. Olhos fechados e a boca aberta. Dor. Ele parou e a encarou durante algum tempo. Laura não conseguia gritar ou falar, seu olhar aterrorizado implorava por clemência. Lindos olhos verdes.
O taco foi ao chão. Por alguns instantes a jovem alimentou esperança. O homem não mais sorria. Estava sério. A levantou com delicadeza e a abraçou. Lágrimas confusas e aliviadas corriam abundantemente por seu rosto arredondado. O palhaço afastou-se cerca de um metro. Observou seriamente a moça durante mais algum tempo. Então um sorriso malicioso brotou de sua boca pintada. Seguindo de uma risada sádica. Rosnou, lançando-se contra a moça, prendendo seu pescoço contra a parede. Sussurrou com voz grave e rouca.
- Não chore princesa, agora vou apenas desfrutar um pouco do teu corpo. Vou te matar só depois.
Ele a puxa pelos cabelos, a gira e desfere uma tapa em seu ouvido. Laura gira novamente, ficando de frente para a parte de trás do sofá. O palhaço curva o corpo da jovem contra o sofá, suas mãos frias apertam grosseiramente seus quadris e seios. Laura sente seu corpo sendo penetrado vigorosamente enquanto chora ao ver Ricardo morto. Ela implora pra que ele pare e ele, é claro, adora isso. Sente-se maravilhosamente bem ao estuprar o delicioso corpo da jovem loira que chora copiosamente. Após gozar espanca sua vitima até que ela fique desacordada.
Marta estava zonza, sabia que não deveria dirigir em tais situações. O dia amanhecia e ela ainda estava completamente bêbada. Não lembrava onde estava ao certo sua casa, dirigia a esmo, tentando deixar o inconsciente guiar o carro. De fato, tinha a impressão que cochilara a maior parte do tempo enquanto dirigia. Acordou assustada, o carro bateu em alguma coisa, não reconheceu a casa. Dane-se, tudo o que queria era um lugar pra deitar, fosse onde fosse.
Laura chorava amarrada. O palhaço prometia deixa-la viva, mas para isso ela precisava fazer algo. Como uma troca de favores, disse ele. Ela precisava da vida e ele precisava de sua boca. A jovem nunca havia feito sexo oral. Não foi uma boa primeira vez, definitivamente. Para sobreviver ela teve que abocanhar cada centímetro e engolir cada gota. Após isso ele a matou, não sem antes quebrar todos os seus dedos e arrancar seus olhos. Doce Laura.
Marta acordou e como sempre prometeu a si mesma que não mais beberia ou usaria drogas. Sorriu ao lembrar da loucura que cometera na noite anterior, foi parar na casa de um desconhecido com quem transou loucamente. Não lembrava como tinha ido parar em casa e estranhou não ter acordado no sofá, e sim na sua cama. Levantou-se e foi até o banheiro.
Rogério, quarenta e cinco anos, dois metros e dez de altura. Trabalhava como palhaço de circo a mais de trinta anos. Não tinha esposa ou filhos, até então. Sempre que podia saia pela noite para beber um pouco. Era um palhaço boêmio, diziam os poucos que quase o conheciam. Era bom no que fazia, mas o tédio carcomia os seus dias e por muitas vezes ele sentia vontade de não existir, embebedava-se.
Nova cidade, nova parada, nova noite e um novo porre. Tudo era tão novo e ao mesmo tempo sempre a mesma coisa. Não gostava mais daquilo, precisava de algo mais, porém, onde buscar? Foi quando cruzou o caminho de uma periguete. Estrada deserta, terra batida, mato por todos os lados. O palhaço, a garrafa, a prostituta. Não havia dinheiro para ofertar, ofertou o que tinha. Não houve negociação. Troca de insultos. Um lapso. O palhaço acertou a garrafa na prostitua. A garrafa quebrou, a prostituta morreu. Fim.
No dia seguinte era um novo homem. E numa das noites que seguiram aconteceu um acidente. Uma briga por causa de um jogo de bilhar. Um palhaço, um taco, um bêbado. Desta vez legitima defesa. Mais de quarenta mortes nas costas. Alguns acidentes, algumas vinganças, algumas por esportes, mas a maioria por necessidade. Tornou-se um viciado. Estava sendo procurado, matou o dono do circo. Foi longe demais, mas nessa altura a única coisa que queria era saciar a vontade.
Noite. Bairro deserto. Uma ou outra casa no meio de um monte de lotes de terras cheias de mato alto esperando compradores abastados. O lugar perfeito. Entraria na casa mais afastada e mataria quem estivesse dentro. Com sorte, encontraria alguma mulher para saciar outras necessidades. Teve sorte.
Frenesi. Não conseguia entender o que estava fazendo. Enlouqueceu. O dia já amanhecia. Laura e Ricardo estavam espalhados pela casa. Estava ofegante, completamente manchado de sangue. Na mão a melhor faca que encontrou na cozinha. Aliviado. Pneus cantaram. Freios. Baque. Silencio. Um palhaço alerta. Uma mulher entrou. Completamente desnorteada, não notou o sangue ou o leite derramado, passou indiferente pelo palhaço. Caiu no sofá.
Um grito desesperado. Ao entrar no banheiro Marta encontrou a cabeça de seu único filho dentro da banheira. Gritou incansavelmente até perder a voz e ninguém apareceu. Permaneceu chorando e tremendo durante muitos minutos até tomar coragem e procurar Laura. Encontrou pela casa os pedaços de Laura e os pedaços restantes de seu filho. Encontrou também um bilhete, com os seguintes dizeres:
Senhora
Agradeço imensamente tua hospitalidade. A tua casa, o teu filho, a tua serva e o teu sexo muito me serviram na madrugada e manhã de hoje. Não acredito que vá se lembrar de mim, mas quero que saiba que de forma alguma esquecerei mulher de tamanha generosidade como você. Sempre serei grato a ti e para demonstrar minha gratidão foi que te deixei viva. Caso não tenha encontrado, a cabeça do teu filho está na banheira. Os restos dos corpos estão espalhados pela casa, espero que entenda minha arte.
Um forte abraço e até a próxima.
PS: Estou levando os olhos da jovem de recordação, pois são os mais bonitos que já vi.
Nove meses depois Marta deu a luz ao primeiro filho de Rogério. Alguns anos depois Rogério foi preso e pegou alguns muitos anos de prisão. Rogério e Marta se tornaram amigos e Cristiano visitava o pai todo mês. Aos dezesseis anos Cristiano ganhou um dos olhos de Laura como presente de aniversario. Doce Laura.
Ed Britto Jr