Revives
Era um vento cinza de fim de tarde, haviam árvores e sombras e folhas secas esvoaçavam-se eventualmente e chuacacolhecrequeavam sob nossos pés, estávamos perdidos todos nós, procurando alguém que ficara para trás, alguém importante, talvez nós mesmos, talvez eu. Sempre nos encontramos esses e aqueles, talvez duvidando alternadamente disso e daquilo, nem contudo, sobre todavia, porém... não havíamos percebido que não eramos três ou quatro, num repente, rumando o aleatório desconhecido, com o peito arredio em se manter tranquilo... então eu vi... todos que haviam ali comigo, e em mim, inexistiram, em algo me vi em um, sozinho, defenestrado, estatelado, morto, no meio daquele chão, coberto de sujeiras e folhas.
Corpulento, pálido, os caracóis dos cabelos ressequidos entrelaçados entre pequenos galhos e teias, lábios roxos e membros inchados, a barba por fazer destacava-se na alvura ainda mais alva do que a dos primeiros anos de vida, cílios alongados em olhos semicerrados, cinzas, me ajoelhei atônito, era tão estranho, poderia não ser, tomei o rosto gelado com as mãos trêmulas e observei, haviam duas pequenas cicatrizes , uma de uma peraltice na cama dos pais quando muito pequeno, eu sabia que havia, talvez no extremo esquerdo da testa. Outra central, quina de uma mesa em sala de aula, quase entre as sobrancelhas, tive a impressão de encontrar várias pequenas marcas, ou não quis perceber que eram mesmo aquelas.
Num impulso puxei o lábio superior, incisivos grandes, o incisivo direito torto, sobrepondo o dente seguinte... Meu Deus, eu estava... eu já não estava. Não havia me dado conta, diante de tantas coisas, diante de tanta pressa, perdido no fluxo arrebatador de tantas ideias e afazeres. Como eu não pude perceber que já não estava lá. Quando? Como? Onde? Não havia apenas me distraído ou perdido o caminho, estava tão envolto em qualquer outro eu que perdi a mim.
Os problemas maiores tomam um leve sorriso nervoso, casca grossa demais pra encarar e ainda racionalizar, mas bastava sentir que eu já não estava ali. Senti meu coração apertar como nunca, uma pontada, com o perdão da expressão, filha da puta, já não havia ar, sem força ou espaço pra puxar, quis levar as mãos ao peito, mas já não sentia as mãos, ou o vento cinza uivando, e o horizonte foi se verticalizando, e antes do fim da ideia de queda, as cores e os sentidos se apagaram. Restavam resquícios de consciência se esgueirando, escorrendo como ultimas gotas, ouvia-se o som que me lembrava uma procissão, ou sei lá... cantavam: “se eu não mudar ninguém vai ver que eu me afundei, quem sentiu a dor mais forte, se eu não voltar se lembre bem que eu não sou ninguém sem teu amor por mim...”.
Gostaria ali de ver um flash back bem editado, com a música ideal, recheados dos momentos marcantes. O pé de avô Esmeraldo balançando, palavras cruzadas, sorriso largo e flamejantes olhos azuis. A íra vibrante de Juci, sempre velho, sempre firme, rio urubu abaixo, ou levando o pequeno calango nos braços, acompanhado de grossos braços e ralo bigode. Noutro tanto, muita cerveja, cinzeiros cheios, palavrões e muito amor, porto de estrela, grande raiz, matriz, matriarca. Cada loucura de cada tio era um pedaço de pai que ele juntava para construir em si um homem, enquanto seu pai não voltava. Seu pai indo-se... e as sarnas da Jéssica eram estrelinhas envolta dos pez de galinha de seus olhos puxados, demorava pra encontrar alguém mais bela, Dolar era o nome do seu cão, um pastor alemão capa petra, uma bolinha tropeçando sobre as próprias patas sobre um antigo tapete, casas alagadas, vendavais, e tome chuva, eram-se a beira dos móveis e carcomiam-se as estruturas da família, irmãos no colo, meus quase filhos, e o digiorge dos primeiros acordes, e as lindas madeixas enrolando-se nos dedos por detrás das colunas, judazinho, saulinho, e um amigo de plástico chamado esqueletoide, um rinoceronte esquecido, amizades lembradas...
tanta coisa poderia entrar ali, mas como ver a vida passando diante dos olhos se até mesmo o momento da morte eu perdi? No ínfimo resquício pedi, ressuscita-me...
Eleanor Rigby, hp pavilion, fones philips, algumas dormências e o estranhamento do peso, memória confusa, cacei meus cabelos, um resto de chá num copo da coca, sábado, 14 de agosto de 2010, uma hora e quatro minutos da manhã. Estou vivo, estou de volta.
